terça-feira, 28 de junho de 2011

Voilà ma route...

Suponhamos que eu escrevesse: "Que os versos me caem sobre os ombros como folhas mortas. Sempre estiveram em mim. Amadureceram. Poemas são outonos. Cheiram à carambola fresca, pesam à queda de jambo."
Um estrangeiro jamais entenderia os meus versos, não conhece o agridoce de uma estrela d'árvore, nem a consistência de um jambo maduro. Seria incompreensível. Mas não é. Nos entendemos pelo brilho de um pós-verso, da contemplação na folha de um passado narrado que chega até ali em quatro ou cinco palavras sucintas. A frase vinda a tiro, a falsa generosidade de um verso dado e incapacidade perante um silêncio eloquente, e a consciência de gritar nele o mais óbvio.
Já tornou-se um chavão, mas devemos relembrar: "Morreram os ingleses, não existirá mais a Inglaterra, e quando não mais existir um indivíduo sequer que fale o inglês, falar-se-á Shakespeare."
E eu entendo: "Éparse au vent crispé du matin / Qui va fleurant la menthe et le thym... / Et tout le reste est littérature." Paul Verlaine
A poesia é o encontro. Não construímos a Torre de Babel.


A quem muitas vezes encontrei, embora quase sempre indeciso. Com respeito a um dos mais ricos poetas da minha humanidade, Paul Verlaine.




Encontrando Paul Verlaine

Et je me’en vais
Au vent mauvais
Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feullie morte

"Chanson D'Automne", Paul Verlaine



Escutar teus versos melodiosos
Como o rolar de um tapete vermelho
Que continuamente se abre
E se mostra.
Tua tessitura – começo e fim.
O charme de seda (tua língua)
Um convite,
um descer do monte
Parnaso,
a que ficaste ao meio do caminho
Ébrio e confuso poeta.
Ao meio do caminho
Porque és o anfitrião.

Que árvore o fizeste folha caída?
Pois que te recolho. Estás maduro
E não morto.
Teus versos indecisos bem aqui cairão.
Com tua melodia, teu verso-acorde:
“Les sanglots longs des violons”

Não subas o Monte, bardo!
Que tua embriaguez aqui é bem vista
E nossas belas palavras te gritam
E anseiam tua sinfonia
E que te abrem o farrapo
De tessitura aos retalhos
(mas
com
caminho)

Em nossas canções de verão
Tua alma exalta.
Teus amores serão válidos.
Valem teus versos, Verlaine!

E que considero teus poemas de outono
Mas quisera-me Deus
Ver tua melodia a rimar
maribondo!

Venha, Verlaine, que neste caminho
Apenas o verso é o encontro!



Flávio Morgado





terça-feira, 21 de junho de 2011

Norte(s)



A mariposa

À esta hora
Em que estamos eu e Sartre
Em uma longa conversa,
Com suas devidas pausas reflexivas,
Sobre o engajamento que cabe
À nossa não-natureza.

E eis que, repentinamente,
Pousa uma mariposa noturna
Sobre a palavra norte.

Que sabe essa mariposa,
Inconsiente de si,
Abreviada em sua natureza
E eterna estranha de meus olhos,
Sobre o pouso desavisado?
Que sabe sobre uma leitura?
Que sabe este inseto de
Seu voo...
Que sabe a mariposa
Sequer da palavra norte?

Que talvez eu, distraído nas letras,
Atento a tudo que não posso perder,
Voltasse os olhos ao pouso
E à palavra norte
E pensasse no meu,
E quisesse dar vida à mariposa
E lhe atribuir um aviso,
Uma mensagem, um presságio...
Mas que sei eu sobre a natureza,
Senão minhas atribuições?
Que sei eu sobre a mariposa?
Nada, senão seu pouso
E agora sua morte.

Da mariposa que sobre
A palavra pousada:
A ela, vulto de qualquer
Superfície.
Acendesse em mim este poema.

Que sabe as mariposas sobre as metáforas?

Que sei eu sobre as mariposas
Senão sê-las?
Escolhendo sua morte minha,
Não-natural,
Ecoada em meu poema:
Norte ao qual pousei.



Flávio Morgado.


"A palavra 'Absurdo" surge agora sob minha caneta; há pouco no jardim não a encontrei, mas também não a procurava, não precisava dela: pensava sem palavras, sobre as coisas, com as coisas. O absurdo não era uma idéia em minha cabeça, nem um sopro de voz, mas sim aquela longa serpente morta aos meus pés, aquela serpente de lenho." (Sartre, Jean-Paul. "A Náusea", pág. 190)
Em 21 de Junho nascia, sem razão, o filósofo. Cresceu por fraqueza e morreu por acaso, como todo ente.




terça-feira, 14 de junho de 2011

Dizedor de inspirações.



Mundo que não se engole, voa
(Para meu pequeno Vitinho, dizedor de inspirações)

A consideração poético-inventiva:
“Fávu, andei pensando:
Por que o mundo flutua?
Será que pode vir um monstro e engolir?”


As crianças têm um mundo só
De curiosidade
Que um sonho seu, sem sentido,
É os que mantém são.

Não sabem os duros adultos
Que as crianças inventam
Por excesso de nada nas coisas:
Os olhos são catadores de inútil
- vide as pedras que são promovidas à gudes,
E a precisa engenharia dos barcos de jornal.
Os braços e dedos são degustadores de sujeira,
As pernas fugideiras de mãe...
E os coraçõezinhos são balões japoneses:
Voam no balé dos ares.

As crianças são também decerto perversas,
Não pelas travessuras,
Mas pela sutil e sorrateira
Capacidade de engolir verdades
E vomitar silêncios.
Por sorte não nos engolirão (e não digerem),
E tanto não destroça
Que se não fosse nossa imaginação
(esse mundinho de mil pernas)
Nossa cabeça digestiva não permitiria
Realizar em metáfora
(outro mundinho de mil pernas)
Que as crianças nos confrontam,
E feito Davi ao Golias,
Com pedrinha nos desmoronam:
- Pra quê comer na hora certa?
- Pra quê dormir no escuro?
- Posso pegar o rabo da nuvem?

E têm o prazer pelo erro,
O que faz o caminho mais perto
À poesia (tá aí a pedrinha!)
Que descem feito bigornas:
- Por que envelheço?
- Por que não sou o mesmo?

Educamos um filho
E alimentamos o nosso
Dom Quixote-mundinho
Que resiste sozinho e calado
Aos invisíveis moinhos
Do mundo-razão:
“Meu filho, era uma vez um cavaleiro...”
(conto pra mim)

E diz-se ao menino:
- É preciso trabalhar e ser gente.
- É preciso amadurecer.
E desce um mundo preciso,
Revestido ao chumbo
Que é perceber
Que o mundo é tão impreciso
Que não vale a pena.

Ou melhor, a pena vale
Quando escreve:
O avião fura algodão-doce.
O sapo é um chão que pula.*
A girafa é um bambu-de-pegar-coco
Que virou bicho.
É tudo verdade!
E são e salvo, redimidos pela imagem
(até os medíocres, que foram reinventados)

O mundo da criança
Só manca e se faz de burro, tudo sabe.
Os medíocres é que se pesam em verdade
E engolem a invenção.

Mas nós não amamos o amor?
E não choramos a saudade?

(Preparo meu estilingue...)

Por que omitimos
Que o amor não se toca?
E que a saudade é sentir
Presente uma ausência?
E que dessas ausências
Enchemos o balde dos nossos olhos,
Que transborda.

Não explique. Eles sempre nos beijam à noite.

São seus corações...ai os coraçõezinhos!
Que não querem engolir ninguém,
Que sustentam o nada
De assopros vazios.
Com suas alminhas de balões japoneses
Que dançam a dó dos ares,
Esbarram a tristeza da Lua,
Libertam Columba,
Sorriem às Três Marias,
Acariciam Canis maior e
Debocham no Cruzeiro do Sul...
sem se cansarem.

Até que erguem,
Infinitamente,
A própria noção de infinito.


Flávio Morgado.




*O verso em questão é do poeta Manoel de Barros, aquele que disse que a poesia é a infância da língua.








Quando eu crescer quero ser que nem ele (os dois):

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O amor comum.

Por costume, para os dias dos namorados. Pelo costume dos namorados.




Celebração do amor comum


Celebrar o terceiro mês do amor
- com seus prazeres de descobertas
E encaminhado sentimento de posse.

Celebrar o décimo quinto e o décimo nono
Mês do amor
Com seus esquecimentos
E forçadas efemérides
(primeiro beijo, primeiro chopp...)

Celebrá-lo pelo que está.
Por todas as conversas mal ouvidas
Como aquelas que as bocas se movem
E consentimos sem uma palavra.
Chamamos indiferença – erramos.
Estamos conversando sobre o nada
- o ápice do amor.

Esquecer do amor é tê-lo:
Quando estamos sincronizados.
Quando não o medimos mais por cartas,
Quando se banalizam os poemas,
Quando cessaram os telefonemas.

O mais frutífero do amor
Se dá na entressafra
A qual chamamos tranquilidade.

Porque o sorriso passa desapercebido
(distante de mim e mais próximo de você)
Porque só passo a amá-la
Quando lhe percebo as imperfeições,
Só suas, longe de minhas projeções.
O reconhecimento das solidões
É a prova. No mais,
O que for esperado é esconderijo.

Celebrar o desapego.
Tal como evitar poemas
De rosas, borboletas, perfumes...
Tudo isso pertenceu ao quando.
O hoje é um pássaro em pleno voo,
Que não escrevo porque pousa pomposo,
Mas porque precisa ser dito:
Ele está voando...
Está voando!



Flávio Morgado.





Pra durar:




"O presente contempla o presente." Clarice Lispector

sábado, 28 de maio de 2011

Guardar silêncios.


Máquina de guardar silêncio.




Guardador de silêncios

"A gente fica a pensar se a história não será em grande parte um romance de historiadores."
Tobias Monteiro


Por ofício, um guardador.
Por qualidade, um rancoroso.
História: revisão de remorsos.
Poema: cofre necessário.
Cacos
apropriados
de vasos
vazios,
Peça
desconstruída.

Tal como a exploração de negros
Ergue à memória um João Cândido,
Eleva um poema
A falta de poesia no mundo

E então, por isso...

Guardar silêncios como inventar almas.
Dar coragem a um homem
Que olha o mar e quer seguir:
Memórias de naus que partem.

Guardar o silêncio para quando não estiver.
Dando ao poema a poesia que lhe coube,
Como as flores não trocam de cor.
E fingir eternidade redime amores.

Não matar nossos mortos.

Menos tempo sendo vento:
Inventar formas, guiar folhas.
Erguer cacos. Bastar-se com os cacos.
Mover moinhos com assopros:
Fazer o vento.

Preencher o vazio das coisas
Com a incompreensão que se dá entre nós.

Seja o silêncio um consentimento
Ou o poema e o poeta a sós.

Mas guardá-lo
Pela necessidade do agora
Em inventar homens
Do passado que não se pos.
Desenhar heróis e sua poesia imarcescível
Ao nosso presente,
Bem como o amanhã nos fizer.

Transguardá-lo pela imaginação.
Como ter um amigo mudo
E em parte disto, escutar o que quiser.


Flávio Morgado.


Outra máquina de guardar silêncio.













P.S.: Qualquer semelhança deste amigo mudo com Bernardo, personagem inventivo e inventado, e melhor amigo do poeta Manoel de Barros é mera coincidência. Ainda que guardar o silêncio seja atributo daqueles que vivem do prazer do desancontecimento e percebê-lo como tal seja qualidade de poetas que desenxergam.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A moldura.

"Vênus ao espelho." (Velázquez)


O emoldurador

O trabalho:
Dar moldura a um quadro.
O que significa fazê-lo.
Dar moldura não é mero
Ofício de marceneiro,
É significar o quadro
Perante o nada.

Aqui neste quadrante
Há a arte.
Após a madeira, o nada
(que a arte tentou enquadrar)

Uma paisagem, um rosto
Um momento pretenso a parar.
E que para isso se desloca,
E o coloca preso à parede
Para que toda realidade possa andar.

Dois dedos de madeira
Para o limite
Da realidade que passa
(e ainda se tornará arte)
Para o quadrado que marca a ausência,
Dada a moldura.

O pintor que em seu ofício
Pára um instante, que
Nunca pára, mas
Já é ausente, e
Por isso pintado.
Significado pela falta,
Referendada a moldura.

A moldura que não sabe
O pintor até ali
- só sabe o quadro.
O pintor que não acessa o todo
- só percebe o instante.
E o poema
- que não sabe o emoldurador –
Mas o emoldura mesmo assim.

Afinal nem o agora nos basta.
E no mais, a ausência dirá por mim.


Flávio Morgado.



Uma aula:

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Pelo silêncio e pelos versos.


Pausa*

Uma pausa na prosa e começa o poema.
Uma respiração...
Um tornar-se humano ao pé de cada verso.
Inserir-se à prosa: leitor, poeta e todo-nada.
Não basta um ponto,
Certas vezes, mero adorno,
Atente à palavra: “boca”
E dita, já incita.
Exclamá-la ou interrogá-la
É torná-la volúvel ou instigante.
E no mais, uma breve pausa não basta.
Não basta à palavra,
Que atriz aguarda ao seu ato na coxia.
Não basta ao poeta e ao leitor
(conversas íntimas requerem o silêncio dos olhos)
E não basta ao todo-nada,
A este pular de linhas que incita mudo
O mundo de nossos olhos.
Este trajeto etéreo ao caminho da luz.
Este escuro de nós mesmos.
Nossa inserção.
Nossa aflição.

Como num palco (a frase)
Ao roteiro do verso, que rima, improvisa...
Ela viesse: a palavra esperada!
A grande atriz da noite.
Nada como saber um verso de cor!
A pausa é o teatro.

O entreato que costura.
A respiração que humanizou Macbeth.
A ironia de Chaplin.
O todo-nada. O silêncio. Não dito.

Como a saudade que acende ao amor.
Como a inocência que faz o natural.
Como não dizer ao amor é amar duas vezes:
Pelo medo e pelo desejo
Pelo silêncio e pelos versos.

Os versos...
Que são toda a vontade de dizer o silêncio
Guardado no que o poema não escreve
E o leitor não aguarda.
Apenas escrito e remetido...
E faz-se a poesia: alicerce de todo o nada.


Flávio Morgado.



*O poema "Pausa" ficou em segundo lugar no Prêmio Nacional de Poesia promovido pela Editora Sapere e Mar de Letras do Brasil.